sexta-feira, 14 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
FNT/ Guaramiranga
(fotos Sol Coelho)
(fotos Sol Coelho)
Rafael Barbosa, o açougeiro lírico
Rafael Barbosa, encenador de seu próprio texto, está no palco. No pedestal, um microfone e uma lâmpada. A peça se chama Ô Putaria, e a razão deste título será explicada dentro em breve. Vestindo terno e gravata, mesmo figurino que o de Edglê Lima, com quem divide a cena, começa, ele dramaturgo, mas já no palco como ator, a discorrer sobre o espetáculo. Há, no canto esquerdo, uma privada, um cavalete amarelo com o aviso de que o chão está molhado. A ação se dá em cima do palco do Rachel de Queiroz, em Guaramiranga. A porta que dá para o fundo, onde entra o material do cenário, está escancarada, próximo de quem está pendurado em um gancho um pato, de verdade, abatido.
Embora o texto seja autorreferencial, de alguma maneira metalinguístico porque inicia dizendo que em Fortaleza as pessoas não saem de casa para ver um espetáculo que tenha mais de duas horas e, deduz o dramaturgo ironicamente, estas mesmas pessoas não têm paciência para um relacionamento longo, mesmo que o recurso, por seu uso e abuso, poderia ter encharcado a encenação de lugares comuns sobre o que se convencionou chamar de pós-dramático, Rafael, por seu lirismo ácido, vai desossando (a figura do cadáver o pato ali é um achado) o seu personagem e a todos nós.
É isso o que se vê em cena. Um ofício de açougueiro. O que teriam, então, os jovens dramaturgos a dizer que não fossem seus sentimentalismos, essa coisa de viado, questiona o texto. Por mais que a dramaturgia se fragmente, como cacos de vidro, Rafael os traz de volta, seja para repeti-los, apresentando-os em uma outra voltagem, seja para fechar um ciclo metafórico, indo do banal ao sublime. Exemplo disso é a piada sobre alguém que deseja explicar a um matuto quem tenha sido Beethoven. Terá de dizer que é o cão da sessão da tarde que toca piano.
O que poderia ser uma simples piada solta, essa do cão, é retomada num momento de grande crueldade - quando o casal (sim, embora pouco importe, a montagem é mais do que o texto, conta-se a história de um homem que se apaixona por um caçador de patos) esbofeteia-se e um deles exige que o outro lhe fale o nome: É Beethoven, grita e, ato contínuo, fazendo-se de cão, humilha-se para um dono que não lhe quer mais.
Edglê, sapateando e reverberando as ações do seu parceiro de cena, está à altura do que o papel lhe exige, sobretudo, a carga de ironia que o texto lhe pede. A cena em que, de costas para o seu interlocutor, vai sapateando a dor alheia, ao fazer pouco caso das perguntas que lhe são feitas, é uma das pedras de toque do espetáculo.
O espetáculo, do grupo Teatro em Película, vai comprovando a ascensão de um novo nome na dramaturgia nordestina.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
FNT/ Guaramiranga
Ésquilo rasteja na lama do Baturité
(foto de Sol Coelho)
É das artes plásticas que vêm o termo "site specific". O termo é aplicado quando uma obra é criada levando em consideração todas as significaçãoes do espaço e do ambiente. É um conceito chave para se entender a beleza do espetáculo As suplicantes, texto de Ésquilo, dirigido por Tiago Fortes e interpretado por seus alunos do curso de Teatro da Universidade Federal do Ceará, e grande destaque do terceiro dia da 19a edição do Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga.
A apresentação aconteceu ao cair da tarde, em um camping. A plateia, diposta em cadeira em linha, de frente para a cena, teve, de início, uma bela visão de conjunto: havia dois lagos, um seguido do outro, no de trás, o elenco masculino e, no trecho entre os dois, as meninas seguiram adiante atravessando as águas até continuarem a cena no jardim, diante do público
Destaque-se a maneira como os alunos se apropriaram de um texto clássico. Disseram-no em toda inteireza de sua poesia, de seu poder de palavra. Em cena: Bruna Pessoa, Rafaele de Castro, Clara Monteiro, Fernanda Das Mädchen, Isabel Rodrigues, Renato Rodrigues, Wescly Psique, Aristides de Oliveira, Pedro Aragão, Paulo Ricardo, Paulo Vitor.
O figurino, evocando elementos contemporâneos, como o terno sobre o corpo nu dos atores, e o vestido transparente das atrizes, evitando um encharcamento de referências históricas, potencializou mais ainda o poder do texto, elo límpido e direto com a antiguidade e permanência, que, distribuído de forma coral, foi apresentado de maneira muito segura, refiro-me ao fato da passagem da recitação em uníssono para o avanço das falas pontuadas, em momentos-chaves, por atuações individuais.
Foi uma experiência poderosa ver Ésquilo rastejando na lama da Serra do Baturité.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
FNT/Guaramiranga
Eu, Marcelo, queria falar enquanto gente...
Primeiro a pergunta: faz alguma diferença quando a arte que é apresentada se baseou em um fato real, em um episódio verídico?
Hoje, comentei sobre a hierarquização do factual sobre o fictício, no âmbito literário, ao comentar o solo do ator Fábio Vidal (que está em "Salmo 91", sobre quem escrevi a alguns posts), "Sebastião", baseado em um episódio real acontecido na cidade de Maracangalha, no interior da Bahia.
Depois, escreverei a respeito. Reporto um dos pontos que disse na minha intervenção: com o teatro, de certo sentido, esse problema, da validade ou não do ficcional diante de um fato, cai por terra no momento em que o ator sobe no palco e a gente, no tempo em que durar a peça, acreditaremos que ele é Hamlet.
Presumo ter incentiva uma pessoa que não era da área a falar pelo o fato de eu ter dito, a propósito do comentário dos debatedores sobre a validade estética do uso dos letreiros no final do espetáculo, que, pelo fato de já vir de um outro festival, com muitas apresentações, dei-me ao exercício de assistir aos espetáculos sabendo pouco ou quase nada deles e construindo as informações sobre a peça pela própria montagem em si.
Terminada as pontuações dos debatedores, inscrições na plateia - mesmo com o adiantado da hora, com o almoço quase sendo gongado pelos sinos do mosteiro - depoimento me chamou a atenção.
"Eu queria falar enquanto gente..."
O nome dele é Marcelo. Contou que era cabeleireiro. "Meus amigos me convenceram a vir descansar aqui". Os amigos são do grupo Pavilhão da Magnólia. Quis dar um depoimento despreendido de referências - que não as tinha - como expressão do que seria, tão somente, público, ou, na expressão dele, "gente".
Isso me fez lembrar de um post antigo da atriz Fernanda D'Umbra que reclamava da falta do que ela chamou, se a memória não me atraiçoa, de "público civil" - gente como o Marcelo, acredito eu.
Fiquei pensando se o público, de alguma maneira, não é resultado do teatro que escolhemos fazer?
Uma pergunta: para quem se faz teatro hoje em dia?
domingo, 9 de setembro de 2012
FNT/ Guaramiranga
Botando o boneco com
lirismo
(crédito da foto: Sol Coelho)
Há um provérbio aqui no Ceará que
diz: “botando boneco”.
Significa, em linhas gerais, “criar
caso”, “fazer confusão”.
Se alguém está “botando boneco”,
certamente, alguma dificuldade está causando.
Dificuldade desse tipo que falei certamente não, mas algum
problema, ou desafio, o grupo Bricoleiros experimentou quando do processo,
ainda em curso, de montagem do espetáculo Criaturas
de Papel, peça que abriu a programação de ontem, da Mostra Nordeste, 19º
Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga.
É que eu tive a oportunidade de
ver, em duas ocasiões, o espetáculo infantil do grupo, O Intrépido Anãmirin,
também uma montagem com manipulação de bonecos.
Do teatro aberto para participação
do público, com crianças aos berros e querendo subir no palco, para uma
montagem lírica, delicada.
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